Como Ler a Atividade Solar de Hoje: o Guia dos Índices Solares e da Propagação em HF

Todos os dias, por volta das 4h da manhã (horário de Brasília), o site da LABRE-DF publica um post de Atividade Solar com oito números, gráficos de 30 dias e uma tabela de condições das bandas. Para quem está começando, parece uma sopa de letras: SFI, SSN, K, A, vento solar, campo magnético. Este guia explica o que cada número mede, o que ele significa para a propagação em HF (as ondas curtas, que permitem contatos a longas distâncias) e como juntar tudo numa leitura de um minuto antes de ligar o rádio. Para a base teórica clássica, leia também Compreendendo os Índices Solares, tradução de um texto da revista QST de 2002. Aqui, o foco é o post de hoje.
Uma fotografia da manhã, não uma previsão
Os números do post vêm do feed público de N0NBH (hamqsl.com), que reúne dados do Space Weather Prediction Center (SWPC) da NOAA, o centro americano de clima espacial. Segundo o próprio hamqsl, os parâmetros de fluxo são atualizados de hora em hora e os demais a cada três horas. O nosso post é gerado uma única vez por dia, então mostra os valores daquele instante, e o horário aparece no rodapé, junto da fonte. O que acontecer depois, durante o dia, não está lá. É uma fotografia da manhã, e não uma previsão.
Fluxo solar (SFI)
O fluxo solar (SFI, de Solar Flux Index) mede a intensidade da radiação do Sol na frequência de 2800 MHz, que corresponde ao comprimento de onda de 10,7 cm. Segundo o hamqsl, é um bom indicador da ionização da camada F da ionosfera, a que sustenta a maior parte dos contatos DX em HF: quanto maior o fluxo, maior a ionização e mais altas as frequências que a ionosfera consegue refletir de volta para a Terra. O valor é medido uma vez por dia. Como referência, a tabela do hamqsl associa fluxos entre 150 e 200 a condições excelentes até os 10 metros, e fluxos perto de 70 a bandas altas praticamente fechadas.
O que importa é a tendência. Nos gráficos do site, o fluxo subiu de 92 em 02/10/2026 para 126 em 11/10/2026. Uma alta assim, ao longo de alguns dias, é o tipo de sinal que vale acompanhar; já o artigo clássico de Ian Poole, G3YWX, aconselhava observar o fluxo por alguns dias, e não decidir por um valor isolado.
Manchas solares (SSN)
O número de manchas solares (SSN, de Sunspot Number) é calculado pela fórmula de Wolf, de 1848, que combina o número de grupos de manchas e de manchas individuais. A NOAA informa o valor em uma escala de 0 a 250, atualizado uma vez por dia, e ele se correlaciona de forma aproximada com o fluxo solar. O número diário oscila bastante; para falar do "máximo do ciclo", os cientistas usam uma média suavizada. Segundo o SIDC, que divulga a série internacional de manchas solares (SILSO), o Ciclo Solar 25 atingiu seu máximo em outubro de 2024, com média suavizada de 161 manchas. Desde então, segundo o acompanhamento do STCE/SIDC, a atividade vem diminuindo aos poucos, ainda que tenham ocorrido algumas erupções de classe X entre março e maio de 2026. Ou seja, os valores que você vê hoje no post são de um Sol que já passou do pico.
Índices K e A: a agitação do campo magnético
O índice K mede a agitação do campo magnético da Terra. Ele é derivado de leituras de magnetômetros ao longo de intervalos de três horas, numa escala de 0 a 9, e é atualizado oito vezes por dia. Segundo o hamqsl, K de 0 a 2 não tem impacto sobre o HF; K de 3 e 4 traz impactos polares muito pequenos; K 5, impactos polares pequenos; K 6, efeitos pequenos; K 7, propagação polar degradada; K 8, apagão polar parcial; e K 9, apagão polar completo. O índice A é a média diária de oito leituras de K, numa escala de 0 a 400.
Os dois se leem juntos. Segundo o hamqsl, um A alto com um K alto indica um campo magnético instável, em que os sinais podem desaparecer de repente e alguns caminhos fecham enquanto outros abrem com pouco aviso. Já um K alto com A baixo indica uma perturbação breve e abrupta, que pode causar uma interrupção intensa, mas curta, em HF.
Aqui entra um detalhe do nosso post: o K do card e o K do gráfico são a leitura do instante em que o post é gerado, enquanto o A resume o dia. Os dois valores podem divergir, e o histórico do site mostra isso. Em 05/10/2026 o histórico registra K 5 e A 36, e os dois cruzam as linhas pontilhadas de tempestade dos gráficos (K≥5 e A≥30). Já em 11/10/2026 o K era 3 e o A era 46, bem acima da linha de A≥30. Por isso, olhe sempre os dois.
A NOAA classifica as tempestades geomagnéticas de G1 (Kp 5) a G5 (Kp 9), em que Kp é o K planetário, o mesmo usado no post. Para o HF, a NOAA descreve que em G2 (Kp 6) a propagação pode enfraquecer em latitudes mais altas; em G3 (Kp 7) pode ficar intermitente; em G4 (Kp 8) pode ficar esporádica; e em G5 (Kp 9) pode ficar impossível em muitas áreas por um a dois dias.
Vento solar, campo magnético e ruído
O vento solar é o fluxo de partículas que sai do Sol. O hamqsl informa que ele é medido pelo satélite ACE numa escala de 0 a 1000 km/s, atualizado a cada hora, e que velocidades acima de 500 km/s afetam as comunicações em HF, porque mais velocidade significa mais pressão sobre a ionosfera. O "Campo magnético" do post é o componente Bz do campo magnético interplanetário, de +50 a -50. Quando o Bz é negativo, ele cancela parte do campo magnético da Terra, e as partículas solares passam a ter mais efeito sobre a ionosfera.
O "Ruído de sinal" é um valor calculado, em unidades S, do ruído gerado pela interação do vento solar com a atividade geomagnética. Quanto maior a perturbação, maior o ruído. Em condições calmas, fica em torno de S0 a S2. Já o "Campo Geomagnético" é uma categoria calculada a partir do K, atualizada a cada três horas, que vai de "Muito calmo" e "Calmo" até "Tempestade severa", passando por "Instável", "Ativo", "Tempestade menor" e "Tempestade maior".
Condições das bandas
A tabela do post agrupa as bandas em quatro blocos: 10 e 12 metros, 15 e 17 metros, 20 e 30 metros e 40 e 80 metros. Para cada bloco, dá uma nota para o dia e outra para a noite: Bom, Regular ou Ruim. No post de 13/10/2026, por exemplo, os 20 e 30 metros aparecem como "Bom" de dia e de noite, enquanto os 40 e 80 metros aparecem como "Ruim" de dia e "Regular" de noite.
Atenção: o hamqsl avisa que as previsões de propagação HF "são só isso, previsões" calculadas a partir dos dados disponíveis, e não detalha o método de cálculo. A tabela é uma indicação geral, que não considera o seu local, o horário exato nem o caminho até a estação que você quer contatar. Use-a para decidir por qual banda começar, e confirme ouvindo a banda.
E no Brasil?
Os índices acima são mundiais, e o Brasil tem particularidades. Segundo o INPE, o clima espacial é o conhecimento e a previsão da resposta do ambiente espacial à atividade solar, e ejeções solares podem provocar tempestades geomagnéticas que afetam satélites e receptores GPS, além de causar interferências significativas e até interrupções em enlaces ionosféricos. O instituto afirma ainda que o tamanho do Brasil, a posição do país em relação ao equador geomagnético e a Anomalia Magnética do Atlântico Sul tornam esses efeitos mais intensos por aqui, e que as bolhas de plasma na ionosfera são mais frequentes no Brasil do que em outros lugares. Em resumo, os números do post são um ótimo ponto de partida, mas a ionosfera sobre o país tem comportamento próprio, e vale consultar também o portal de clima espacial do INPE.
E as explosões solares?
O post traz o card “Raios X”, que mostra a classe da explosão solar (flare) no momento em que o post é gerado, na notação da NOAA: uma letra (A, B, C, M ou X, da mais fraca à mais forte) e um número, como B8.1. Como o resto do post, é uma fotografia da manhã: uma explosão dura de minutos a poucas horas, então um valor baixo no card não garante que nada tenha ocorrido antes nem que nada vá ocorrer depois. Elas importam porque o aumento súbito de raios X atinge a camada D da ionosfera, que absorve sinais de HF, e o efeito se limita ao lado do planeta iluminado pelo Sol. A NOAA classifica os apagões de rádio de R1 a R5: uma explosão de classe M1 (R1) causa degradação leve em HF e perdas ocasionais de contato; uma de classe M5 (R2), um apagão limitado de dezenas de minutos; uma de classe X1 (R3), um apagão em área ampla, com perda de contato por cerca de uma hora no lado iluminado da Terra; e uma de classe X20 (R5), um apagão completo de HF em todo o lado iluminado por várias horas. Para acompanhar as explosões em tempo real, consulte o site do SWPC.
Leitura de um minuto
Antes de ligar o rádio, abra o post do dia e siga este roteiro. Primeiro, olhe o fluxo solar e sua tendência nos gráficos: quanto maior e mais estável, melhores as bandas altas. Segundo, confira o "Campo Geomagnético", o K e o A: se o K chegou a 5 ou o A passou de 30, espere instabilidade. Terceiro, veja o vento solar e o campo magnético: vento acima de 500 km/s e Bz negativo indicam mais perturbação. Quarto, consulte a tabela de bandas para escolher por onde começar. Por fim, confirme ouvindo: nenhum número substitui a escuta.
Referências
- HamQSL – Solar-Terrestrial Data (N0NBH) (acesso em out/2026)
- HamQSL – Understanding Solar Indices and Flux values impact to HF propagation (acesso em out/2026)
- NOAA Space Weather Prediction Center – NOAA Space Weather Scales (acesso em out/2026)
- SIDC – Solar Cycle 25 reached its maximum in October 2024 (acesso em out/2026)
- INPE – Programa de Clima Espacial: Definição (acesso em out/2026)
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